Saudades do meu médico

Comportamento
19.abr.2016

Todo mundo já reparou que os tempos estão mudando, e o formato das relações também, não é? Então, já seria de se esperar que as relações entre médicos e seus pacientes não permanecessem as mesmas, em meio às transformações sempre em andamento, certo?

É isso mesmo, mas lembrar de meus antigos modelos médicos me dá saudade. Nas faculdades de medicina, até algumas décadas atrás, muitas horas eram dedicadas ao estudo do que se considerava uma boa relação médico-paciente. É gostoso lembrar de como nos preocupávamos em assimilar os ensinamentos de nossos mestres de “psicologia médica”.

Hoje, no mundo todo, o que vem sendo chamado de “desumanização” da relação entre os médicos e seus pacientes tem sido objeto de estudos. Recentemente, foram publicados na França resultados de uma pesquisa reveladora: quase a metade dos médicos franceses admite diminuir os riscos de um procedimento ou de um tratamento para obter a melhor adesão de seus pacientes.

Poderíamos pensar numa certa deslealdade neste jogo? Parece que sim, pois os pacientes continuam quase sempre confiando inteiramente na palavra dos profissionais de medicina, afirma o estudo. Os divulgadores desta pesquisa comparam os resultados com os de outra  semelhante, porém realizada nos Estados Unidos, em que o percentual dos que dizem aos pacientes só um pedaço do risco dos procedimentos é de apenas 10%. Como se sabe, existe uma tolerância muito baixa à mentira na cultura americana. Lá, mentir é algo que desonra alguém.

E no Brasil, o que temos visto? Uma curiosa e rudimentar  versão nacional da atitude americana de “dizer a verdade” ao paciente tem ganhado mais e mais espaço. E em que consiste isso? Simples: sem medir as consequências de seu gesto, é comum médicos afligirem seus pacientes desnecessariamente, ao enumerarem para eles todas as suas hipóteses diagnósticas, inclusive aquela de pior prognóstico. Na maior parte das vezes, a pior das hipóteses não se concretiza. A pergunta é: será que o paciente precisaria mesmo passar por esse tipo de angústia? Será que isto se enquadra na atitude de “dizer a verdade” ao paciente? Ou seria apenas uma corruptela nacional do modelo americano? Já houve um tempo em que as coisas não funcionavam assim, e médicos costumavam também se preocupar com o estado emocional do paciente, em vez de despejar sobre ele um saber que não lhe ajudará em nada.

A relação médico-paciente é, comprovadamente, um dos mais importantes pilares para o sucesso de um tratamento. Anda, entretanto, adoecida. Embora não seja impossível, vem se tornando árdua a tarefa de encontrar um profissional de medicina que literalmente olhe e converse com seu paciente manifestando genuíno interesse. Parece que cada vez mais profissionais permanecem focados apenas em seus computadores, durante as consultas. Exames físicos vem se tornando raros e superficiais, e a atenção maior foi desviada para os números que virão nos resultados dos exames. Ao paciente não cabe fazer perguntas. Caso as faça, receberá apenas respostas evasivas. Ao que tudo indica, anda mesmo difícil combinar  empatia verdadeira, atenção, respeito e honestidade.

Ah, sim, e voltando ao início da conversa: além de tudo isso, por aqui também temos o hábito de minimizar os riscos para maior adesão dos pacientes ao tratamento.

Prova disso são nossos números de operações cesarianas, que nos colocam num nada glorioso primeiro lugar mundial na ocorrência deste tipo de intervenção.

Mas esta já é outra história…

assinatura_simone

 

 

Artigos relacionados

6 set

O “nunca mais”

É preciso disposição para pensar nos tipos de medos a que nós, seres humanos, estamos expostos, tantos que são. Como superar os medos que acabam nos impedindo de viver bem, livres e lúcidos, capazes de pensar, agir e amar? Pois é, a maioria dos medos que nos surgem na infância vão embora com o tempo. […]

  • 1792
Comportamento
26 jan

Nossas tias Danielle

Pouco tempo atrás, uma jovem chamou minha atenção para um tema que não havia considerado até então. Fazia muito, disse-me ela, que observava idosos à sua volta, “chantageando emocionalmente” os familiares mais próximos. Em seu grupo familiar, comentou, haviam ocorrido situações que causaram grande desconforto emocional nos filhos adultos do idoso. A intervenção de um […]

  • 2970
Comportamento
24 jun

O medo da finitude

De vez em quando, devíamos nos lembrar que só não envelhece quem morre precocemente. Quem sabe, a partir daí, cada aniversário voltasse a ser percebido como uma alegria, uma celebração, e não a evidência de algo assustador? Mesmo com todas as modificações sociais que o aumento da expectativa de vida trouxe (jovens retardando seu ingresso […]

  • 3325
Comportamento