O medo da finitude

Comportamento
24.jun.2014

De vez em quando, devíamos nos lembrar que só não envelhece quem morre precocemente. Quem sabe, a partir daí, cada aniversário voltasse a ser percebido como uma alegria, uma celebração, e não a evidência de algo assustador? Mesmo com todas as modificações sociais que o aumento da expectativa de vida trouxe (jovens retardando seu ingresso na vida adulta autônoma, mulheres sendo mães em geral após os 30, às vezes em torno dos 40,  etc.), algo que ainda não podemos fazer é excluir os aniversários dos calendários. Anualmente, somos forçados a assumir um envelhecimento inevitável, ainda que retardado.

Não se fala muito disso, mas a velhice é muitas vezes associada não somente à perda da beleza, mas à feiura. E muitas vezes são as crianças que nos fazem conscientes desse aspecto: suas observações sobre a pele , os dentes, às vezes até sobre o odor dos velhos,  são particularmente chocantes para os adultos que somos.  Ninguém se imagina ouvindo isso.

Envelhecer é um evento que poderia ser comparado a uma ilha, cercada por um oceano de medo e preconceito. Entre tantas  outras coisas, algo que nos leva a não querer envelhecer é o medo.  Medo de adoecer, medo das estatísticas, medo do que pode nos surgir de repente, medo de ver reduzido nosso papel social… Além do mais, o horror de constatar que algumas funções em nosso corpo já não são mais as mesmas! Nos homens, o foco do medo está na capacidade sexual.  Nas mulheres, a perda da possibilidade de procriar também costuma ser um baque. Nos dois sexos, o medo da dependência, de passar a depender dos outros, e o medo da solidão são constantes.

Além de tudo isto, a perspectiva de vida mais longa pegou de surpresa a ciência: as pesquisas não tiveram tempo  de esclarecer suficientemente a velhice e seus “novos” males, como as diferentes formas de demência.    A doença de Alzheimer é um grande medo, e contribui para este conjunto de inquietudes dos que vão envelhecendo. É talvez o maior de todos, pois perder a memória significa perder o que de melhor nos outorga a velhice, que é a possibilidade de compartilhar nossas experiências. E, também, a capacidade de continuar a adquirir novos conhecimentos, através da leitura, cinema, teatro, televisão ou, luxo ainda maior, participando de conversas e discussões.

Ao mesmo tempo que está presente em todos os indivíduos, o medo de morrer é totalmente pessoal, já que é sobre a  nossa própria morte que pensamos, de vez em quando. De virtual,  esta eventualidade vai se tornando mais e mais realista, à medida que os anos passam.

Começamos nossa relação com a morte, em geral, protegendo nossos filhos da sua ideia. Por medo de que se choquem com a dura realidade da existência da mesma, procuramos disfarçar sua crueza, ocultando sua existência dos pequenos. Depois, passamos anos a proteger nossos filhos de todo o mal, pois no fundo deles está a morte, e sabemos disso. Até que há um momento em que o temor por nossos filhos passa a se acompanhar também de um temor por nós mesmos.

É preciso estar atento a este momento de virada, para não passarmos a ficar obcecados pela ideia da morte  e aprendermos a viver  mais serenamente, porém ativamente.

E se em vez de só envelhecer, decidíssemos despertar e crescer, enquanto há tempo para isso?

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