Somos o que temos?

Comportamento
10.abr.2018

De algum tempo para cá, nos acostumamos a ouvir que, nesses dias em que vivemos, “as pessoas são o que tem”. Repetido à exaustão, o comentário banalizou-se, passou a ser usual, e não causa mais impacto.

Então, somos o que temos?? Ou, por vezes, o que aparentamos ter? O que isto quer dizer mesmo? De forma muito resumida, isto significa que não importam mais nosso caráter, nossos valores, nossos atos e sim o que podemos comprar. De acordo com a atual sociedade de consumo em que vivemos, nosso valor pessoal reside, basicamente, naquilo que possuímos ou fazemos crer que possuímos.

Esta lógica, que abalou toda a estrutura da sociedade atual, avançou continuamente, sem que nos déssemos conta. Devagar e sempre, e cada vez mais.

Assim, as crianças pedem aos pais mais e mais coisas: dizem-se inferiorizadas e humilhadas perante os amigos que já possuem os objetos de consumo da vez. Os pais, confusos, sentem-se muitas vezes humilhados também, caso não possam atender às demandas dos filhos. O que acontece aqui? Por que os pais não se lembram de nossos valores mais antigos na hora de transmiti-los?

A questão é que os pais também perderam o hábito de pensar com independência, já que é mais fácil acompanhar a maioria e embarcar na onda do momento. Não se dão conta do quanto estão sendo manipulados, de como suas necessidades estão sendo “criadas” o tempo todo, à semelhança do que acontece com seus filhos. “Todo mundo tem, todo mundo faz, como ficar de fora??”

Fica difícil passar valores consistentes para os filhos, se nós mesmos os esquecemos. Por outro lado, quando preservamos o hábito de “parar para pensar”, refletir sobre nossos hábitos, e se estamos, de fato, satisfeitos com o rumo de nossas vidas, é possível nos lembrarmos de quem somos de verdade. Aí fica fácil transmitir valores: atitudes coerentes com o que se diz, intimidade, conversas sinceras e explicativas, este é um conjunto de peso, que ensina aos filhos e estimula a reflexão.

É preciso resgatar nosso conjunto de valores, responsabilidades, posturas cidadãs e falar aos filhos de coração, com honestidade. Esta é a nossa oportunidade de contribuir para a formação de indivíduos com capacidade crítica. Mas atenção: se não for a nossa verdade, não vale a pena nem tentar. É a convicção, sempre, que traz força ao que dizemos.

Artigos relacionados

10 jul

Fraternidade e solidariedade: há espaço?

A ideia de que vivemos numa sociedade cada vez mais individualista, sob o reinado do cada um por si, pode em breve dar lugar a outra, que vem crescendo silenciosamente. O que se passa, neste inicio do século XXI, é uma verdadeira mudança de paradigma, de acordo com muitos pensadores da atualidade. Para se ter […]

  • 9120
Comportamento
8 ago

Encontros raros

Quantos encontros que você poderia chamar de raros já aconteceram em sua vida? Encontros que evoluem para uma ligação profunda e verdadeira, que ultrapassa o tempo e o espaço? Eu, como todo mundo, tive alguns. E um deles foi com meu pai. Nossa convivência era baseada naquele tipo de afeto em que um releva os […]

  • 1526
Comportamento
23 ago

Pequena história das toalhas de hotel

De uns anos para cá, por motivos profissionais, passei a viajar bastante. Logo vim a travar conhecimento com um pequeno tirano, inevitavelmente instalado nos banheiros dos quartos de todos os hotéis. Trata-se de um breve aviso dirigido aos  hóspedes. Invariavelmente encontra-se lá, à espera do desavisado viajante, pronto para lhe provocar uma perturbação emocional com […]

  • 1706
Comportamento