Vingança ou revanche?

Comportamento
20.mar.2018

A literatura está cheia de heróis vingativos, que oscilam entre vítimas e algozes: seria a vingança algo, digamos assim, “doce ao coração”? Alguns dirão que sim, outros que não. De certo mesmo, só o fato de que a vingança tem uma dimensão trágica, à qual a natureza humana dificilmente consegue escapar.

Como ela nasce? Imaginemos uma experiência que nos  feriu profundamente em nosso amor próprio e o ódio surge: ele será o ponto de partida para a vingança. A seguir, haverá a mobilização de uma fantástica energia afetiva, a se “cristalizar” em torno do evento emocional. É a urgência absoluta de reagir a uma afronta considerada intolerável que faz nascer os sentimentos vingativos, que prosperarão às custas da necessidade de manter o sentimento de intolerância elevado, sem trégua. O dano causado tem que ser visto como irreparável, já que os que buscam a vingança julgam que somente ela possuiria o poder de reparar sua dignidade, perdida quando foram renegados ou humilhados. É como se a vingança restaurasse, ao punir o culpado, a integridade da vítima, ao menos do ponto de vista dela. Como explicar, porém, o grande número de vinganças que, ao contrário de reparar um sentimento de perda, são seguidas de sentimentos de  tristeza e de incapacidade de tocar a vida?

Diversos  estudiosos vem se dedicando a estudar a vingança. Os pesquisadores em psicologia americanos Kevin Carlsmith, Timothy Wilson e Daniel Gilbert estudaram as consequências emocionais da vingança naqueles que a praticam ou praticaram. Suas conclusões: a pessoa que se vinga corre o risco de se fixar na lembrança de seu sofrimento, de criar raízes no passado e se deixar paralisar. A punição imposta ao desafeto também bloqueia a possibilidade de transformar a dor em satisfação. A ideia de que alguém se consolará do que sofreu graças à vingança é ingênua , afirmam.

O psicanalista francês Gerard Bonnet criou o interessante conceito de “vingança positiva”, que consiste em aprender a transformar a experiência negativa da emoção sentida em algo positivo. Nesta “vingança”, o que afetou alguém se transforma numa força destinada a construir qualquer coisa: assim é que se passará da auto recriminação à afirmação de si, da vergonha ao orgulho, da tristeza à alegria. Esta  capacidade de se “vingar positivamente” está em nós, é interna. A ideia é investir a energia do sofrimento  num desejo pessoal, de forma a permitir que alguém venha, entre outras coisas,  a se afirmar frente ao outro, a partir daquilo que possui de melhor em si.

Já para outro autor, o filósofo Jean François Bossy, tudo o que está descrito acima tem outro nome, chama-se “revanche”. Segundo ele, esta é a alternativa saudável: em oposição à vingança, que destrói nossas metas de vida e a nós mesmos, é possível nos orientarmos para uma busca tranquila e sossegada, a de uma realização progressiva de nossos desejos. Ao optarmos por uma lógica construtiva, nosso objetivo será alcançar nossos objetivos, e deixaremos de dar atenção ao mal que nos foi feito e a seus autores.

“A revanche supera, sublima e transforma a vingança”, finaliza Bossy. Nada mais verdadeiro, na minha opinião! Tudo isso me traz à mente um pensamento recorrente: um dos maiores segredos dos que aprendem a viver em equilíbrio, independentemente de qualquer corrente de pensamento psicológica, religiosa ou filosófica, me parece ser a possibilidade de desenvolver a característica de procurar o que há de positivo em cada experiência, por mais avassaladora que seja.

Artigos relacionados

9 ago

Olimpíadas

Domingo comecei a assistir à abertura das Olimpíadas, de início incrédula e temerosa, mas logo orgulhosa da beleza do espetáculo que minha cidade conseguiu montar. Tudo muito colorido e vivo, a vontade de fazer sobressair a alegria carioca, as equipes adentrando o Maracanã com um sorriso escancarado. Pergunto-me se o sorrisão era só para entrar […]

  • 2122
Comportamento
26 jun

Sobre a vulnerabilidade

Na delicada questão da formação de vínculos nas relações interpessoais, a sensação de vulnerabilidade está sempre presente, só que de forma mais intensa em uns do que em outros. Vulnerabilidade é o que sentimos quando alguém parece enxergar em nós algo que queríamos esconder, como nossas inseguranças e medos. O sentimento de vulnerabilidade é alimentado […]

  • 2398
Comportamento
10 jul

Fraternidade e solidariedade: há espaço?

A ideia de que vivemos numa sociedade cada vez mais individualista, sob o reinado do cada um por si, pode em breve dar lugar a outra, que vem crescendo silenciosamente. O que se passa, neste inicio do século XXI, é uma verdadeira mudança de paradigma, de acordo com muitos pensadores da atualidade. Para se ter […]

  • 9280
Comportamento