Nós e os “selfies”

Comportamento
05.fev.2020

Tanto já se falou sobre os “selfies”, será que resta algo de novo a comentar?? A esta altura, quem dentre nós nunca fez um selfie?? Dos conservadores aos vanguardistas, dos famosos aos comuns, todos, em maior ou menor grau, aderiram a esta modernidade. Fotografamo-nos todos e a maioria de nós compartilha suas fotos em alguma rede social. O que dizem  dos selfies alguns estudiosos do comportamento, mundo afora?

Há quem diga que, ao fotografarmos pratos que vamos degustar, ou ao fazermos um selfie com um bando de amigos, estamos, é claro, tentando “capturar” aquele momento. Tentando eternizá-lo, como em toda fotografia. Mas também, ao exercer este novo “ofício”, o de fotografar nossa vida,  sentimo-nos “autores” das fotos, esforçando-nos por ostentar um novo talento, quem sabe um pouco artístico.

Outros sugerem que, quem fotografa sua vida, não deseja mostrar o mundo, e sim a si mesmo.  Ao fazer isso, teria a intenção de apresentar uma imagem sempre aprimorada de si mesmo. E mais: no fundo, de forma consciente ou não, a ideia seria despertar inveja em quem não está presente. Para reforçar esta visão, digamos, mais “pesada”, alegam que só  fotografamos  pratos degustados em restaurantes especiais, nunca naquele onde almoçamos nos dias de trabalho. Bom, diríamos, o banal não é para ser fotografado mesmo, não é? A ideia é surpreender, de preferência agradavelmente.

E será que nosso telefone celular virou simplesmente um bichinho daqueles do qual as crianças pequenas não se desfazem e carregam para todo lado? Eles tentariam afagar e mimar um pouco nosso ego carente?? Porque há quem acredite que queremos receber dos outros o olhar de aprovação que pode ter nos faltado em nossa infância. Seria uma tentativa de curar nosso “narcisismo ferido”, veja só…

Tantas tentativas de explicar podem acabar é complicando o que não é nada, além de mais um novo comportamento. Será que veio para ficar? Em que direção evoluirá? Não temos ideia, e, por enquanto, há que se contextualizar bem as coisas, para não se fazer tempestade em copo d’água. Se alguém fotografa o coquetel que está prestes a tomar e posta nas redes sociais, não é necessariamente só para dar água na boca nas pessoas que conhece. Pode ser também uma maneira de dizer que brinda virtualmente com elas, que está com elas, em pensamento, quando vive este bom momento.

A foto compartilhada de nossa vida pode ainda ter uma função “cartão postal”, nova e saudável, desde que não chegue a se tornar um vício. Em um artigo consagrado ao Instagram, o psicólogo e psicanalista Yann Leroux comenta  o fato de que o nome do aplicativo vem da contração das palavras “instant telegram”. Podemos não sair por ai mostrando o mundo através de nossas fotos, mas ao menos abrimo-nos aos outros, mostrando nosso universo.

Vale mencionar uma pesquisa recente, publicada em 2014, que sugere que fotografar demais pode prejudicar nossa memória dos bons momentos. Como se, por confiarmos à câmera a missão de armazenar nossas lembranças, começássemos,  de nossa parte,  a diminuir nossa atenção ao que estamos vivendo. O questionamento que a pesquisadora Linda Henkelin faz é bem interessante: “Por que, antes de acionar nossa câmera, não tratamos de simplesmente olhar e desfrutar do que vemos, sem o prisma de um objetivo? Assim, convocamos todos os nossos sentidos, que podem nos oferecer uma instantaneidade completa, com a chance de se inserir mais duravelmente em nossa memoria do que uma enésima foto que irá para o disco rígido de nosso computador…”  Este parece ser o ponto: estaremos capturando a foto e perdendo o momento real?

 

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