Um pouco mais de compaixão

Comportamento
16.jan.2018

Em tempos de tanta exposição à violência, seja  urbana, doméstica, coletiva ou individual, parece que muitas vezes tomamos uma atitude de indiferença diante de fatos que ocorrem muito próximos a nós. Andamos com medo de nos envolver e sobrar para nós. Justificativas não faltam por não tentar ajudar alguém, mas muitas vezes só não nos manifestamos por ausência de compaixão. Difícil admitir, não é?

Pois é, mas parece haver mesmo um ingrediente precioso para a convivência em falta no nosso dia a dia. Pelo menos, é o que dizem os resultados de uma recente experiência social feita na… Suécia! Ufa, que consolo… Será que por aqui teríamos chance de nos sair melhor??

Com a ajuda de uma câmera escondida,  pesquisadores estudaram as reações de 53 pessoas confrontadas, dentro de um elevador, com uma cena de violência doméstica. Aos gritos, um homem discutia com sua parceira, para a seguir segurá-la e passar a sacudi-la brutalmente enquanto berrava: “Você não é nada! Entendeu? Você não é nada!!”. A agredida, uma jovem mulher, parecia assustada mas, paralisada pelo medo, permanecia em silêncio, sem pedir ajuda a ninguém à sua volta.

Tratava-se de dois atores, mas nenhum dos espectadores sabia disso. No entanto, à exceção de uma mulher que ameaçou chamar a policia, ninguém reagiu, ninguém disse nada, ninguém interferiu na cena. Houve quem  olhasse para o lado oposto, outros que preferiram se entreter com seu celular, os que esperavam impacientemente que o elevador parasse no seu andar para sair o mais rapidamente possível…

A instituição que conduziu o estudo disse ter uma expectativa de que cerca de 50% das testemunhas iriam intervir. O ator estava instruído até a interromper a cena, caso viesse a ser fisicamente agredido por algum dos homens que entrariam no elevador. Mas todos preferiram fingir que não estavam vendo a mulher sofrer aquela violência.

Qualquer um poderia considerar que as pessoas teriam agido assim por medo e não por indiferença. Mas o fato é que, uma vez fora do elevador,  ninguém  procurou ajuda ou chamou a polícia. Aí vem a questão: não seria o caso de se falar aqui em indiferença mesmo, somada a uma ausência de compaixão?

Hannah Arendt, ao falar da “banalidade do mal” em 1963, já explicou que qualquer pode cometer o mal. Banalmente. Por uma questão de oportunidade, negligência ou indiferença. E é aí que tudo começa:  sem perceber, viemos nos acostumando à prática da indiferença. Neste caso, não fazer nada, sair do elevador no momento em que uma mulher é agredida, significa, no fundo, apoiar, dar seu aval, garantir, afiançar, compactuar com a violência.

Em paralelo a isso, ao explorar a violência de forma ilimitada até banalizá-la, nossa sociedade  acaba por nos induzir a uma espécie de  “anestesia” da compaixão. É preciso, entretanto, que tenhamos a coragem e a vontade de nos lembrarmos dela: sem compaixão, ficamos “mal acabados” e nossas chances de identificar a violência e o mal diminuem.

 

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