Solidão: boa ou ruim, afinal?

A Dois
08.set.2015

Existe uma grande diferença entre o estar só, que expressa o prazer de estar sozinho, e a palavra “solidão”, que expressa a dor de sentir-se sozinho. Milhões de pessoas sofrem diariamente de solidão, uma condição psicológica debilitante caracterizada por uma profunda sensação de vazio, inutilidade, falta de controle e medo. O isolamento físico pode contribuir para sentimentos de solidão, mas as pessoas podem ser solitárias no casamento, em família, ou numa multidão. É o sentimento subjetivo de isolamento, mais que a solidão física ela mesma, que pode ser tão profundamente perturbador.

Estudiosos do assunto há muito constataram que determinadas condições podem aumentar o risco de uma pessoa se sentir só, como ser desrespeitada, ter conflitos que não são solucionados ou pouco contato com familiares e amigos. Este ano, o mundo todo ainda veio a conhecer o isolamento social. Todas são situações que podem ocorrer  a qualquer um de nós ao longo da vida e que diminuem nossa sensação de estarmos conectados com os demais. A reação saudável seria nos motivarmos a buscar reconexões. Se não obtivermos sucesso, o sentimento de solidão pode vir a se dissociar da situação que o provocou, tornando-se um estado crônico.

Já se sabe que o sentimento de solidão frequentemente está na origem de muitos problemas físicos, como aumento da pressão arterial, elevação dos níveis dos hormônios do stress e alteração de alguns genes dentro das células imunitárias, com empobrecimento da função imunitária. E mais: resultados obtidos por ressonância magnética mostram  que a sensação de isolamento está igualmente associada  a um maior risco de depressão e a uma progressão mais rápida da doença de Alzheimer.

Todos estes resultados fazem parte de diversos estudos apresentados na última reunião anual da Associação Americana pelo Progresso das Ciências. A solidão teria assim, dizem os estudiosos do assunto, um forte impacto negativo sobre a saúde como um todo, quantificado como “duas vezes mais intenso que a obesidade”. Difícil de acreditar? Os estudiosos acreditam e vão além: eles comprovaram que a solidão é cerca de 50% hereditária, o resto se deveria a fatores ambientais. A intensidade da dor sentida quando a pessoa se sente socialmente isolada é que parece ser uma predisposição inata. Se uma pessoa é especialmente sensível, ela se beneficiará muito e melhorará nitidamente sua saúde e bem-estar, ao priorizar o desenvolvimento e a manutenção de relacionamentos de alta qualidade.

E o que seriam “relacionamentos de alta qualidade”? John Cacioppo, professor de psicologia na universidade de Chicago e expert reconhecido sobre os efeitos da solidão, estabelece três pontos  fundamentais para considerar boas as relações sociais de alguém: ter pelo menos uma pessoa íntima em sua vida, que lhe aceite e aprecie tal qual é (este poderia bem ser o número um em qualidade!), ter relações sociais mutuamente enriquecedoras e fazer parte de uma comunidade que lhe dê o sentimento de pertencer a um grupo e de ter uma existência na coletividade.

Para John Cacioppo, é muito importante sair em busca e encontrar os meios de se reconectar: “As pessoas que se sentem solitárias tem uma espécie de fome, e é  essencial compreender que sua satisfação não reside em se servirem simplesmente de uma boa refeição. É preciso que se sintam na cozinha, preparando e compartilhando com os outros sua refeição.”

Por diversas vezes, temos abordado aqui questões ligadas ao valor da intimidade em nossas vidas. Por isso, adoramos estes dados recentes que confirmam o que outros estudiosos vem dizendo há décadas!

assinatura_simone

Artigos relacionados

29 jan

Incertezas sentimentais e conformismo amoroso

Que vivemos uma época de incerteza sentimental, todos sabemos e muito tem se falado a respeito. Os valores que incentivavam a estabilidade das relações amorosas foram para o espaço nos anos 1970, quando aconteceu a consolidação da revolução sexual. No século XXI, três dos alicerces que estruturam a vida privada (a relação amorosa a dois, […]

  • 5718
A Dois
17 mar

Amamos a singularidade

  Volta e meia ouvimos falar da singularidade, ou seja, da natureza única de alguém. Do que falamos nesses casos, exatamente? Uma maneira de se definir a singularidade seria afirmar que se trata  do conjunto das características  de alguém que, digamos assim, não ficam no “particular” e estão mais para algo que se aproxima do […]

  • 5004
A Dois
26 dez

O poder na relação a dois

Até um tempo atrás, um determinado tipo de homem não era percebido nem valorizado. Estudos mais recentes revelaram que, embora constituindo ainda hoje uma minoria entre os tipos masculinos, estes homens existem. São pessoas que têm como característica básica a crença na democracia em todos os aspectos da vida. Assim, entre outras coisas, vêem o […]

  • 2377
A Dois