Incertezas sentimentais e conformismo amoroso

A Dois
29.jan.2019

Que vivemos uma época de incerteza sentimental, todos sabemos e muito tem se falado a respeito. Os valores que incentivavam a estabilidade das relações amorosas foram para o espaço nos anos 1970, quando aconteceu a consolidação da revolução sexual. No século XXI, três dos alicerces que estruturam a vida privada (a relação amorosa a dois, o casamento, a família) passaram a conviver estreitamente com o universo da sexualidade.

Após a revolução sexual, a ordem cronológica de constituição dos casais se inverteu: no passado, costumava-se viver o amor antes de se aderir ao sexo. Hoje, a praxe é viver, em primeiro lugar, a sexualidade, para se ter acesso a uma ligação sentimental.

Por si só, encontros sexuais não dão a garantia nem a previsão de um futuro para qualquer relação. Há até mesmo uma “sexualidade serial”, mas a situação atual de sucessão de parceiros é algo que desestabiliza os indivíduos. Quando a história é desde o início claramente percebida como uma experiência sexual, ela é “assumida” como tal de imediato, sem que se questione a forma ou a estrutura do relacionamento.

Entretanto, quando os sentimentos entrarem em jogo, os desafios emocionais logo surgirão. E é aí que tudo se complica, já que nos faltam as regras sociais, os rituais e os códigos para tal qualidade de evento. A partir deste ponto, não é mais possível decifrar o comportamento ou as intenções do outro. Até saber não só em que história se está, mas também em que história o parceiro está, muitas dúvidas surgirão. “Estou numa história sexual?” “Estou numa situação emocional?” são as perguntas que se fazem os envolvidos. E é claro, estes são questionamentos que geram muita ansiedade.

Por não conhecerem ou entenderem em que tipo de situação se encontram, os “atores” não sabem qual protocolo social devem seguir. Não compreendem mais seus papéis, nem suas eventuais regras.

Ao comentar este padrão de comportamento atual, a socióloga Eva Illouz inova ao falar de “novos conformismos amorosos”. E o que seria isto??

Seria algo desenvolvido de forma reativa, com o objetivo de eliminar a ansiedade, buscando controlar a situação confusa. O “conformismo amoroso” consiste no fato de as pessoas, tendo em vista o cenário descrito, passarem a buscar uma forma de relação que vá deixá-las tão livres quanto possível, tentando se “garantir” uma satisfação inesgotável.

Ou seja, seria tentar fazer parecer a si mesmo que tudo está exatamente onde deveria estar, afastando a angústia trazida pelas incertezas, difíceis de lidar. Uma forma disfarçada de se conformar com o que se apresenta…

Este me pareceu um jeito original de olhar para um padrão que, lá como cá, se impôs. E será que existem alternativas?

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