O apoio às famílias de adolescentes suicidas

Filhos
03.jul.2018

De uns anos para cá, as taxas de suicídio entre adolescentes subiram muito, no mundo todo. Entre nós, foi divulgada recentemente pelo Ministério da Saúde uma estatística do SUS que revela que, em 15 anos – de 2000 a 2015 – as taxas de suicido cresceram 23% na faixa de 20-29 anos, 45% nos de 15 a 19 e 65% de 10 a 14 anos.

Especulações sobre as causas do fenômeno não param de surgir (depressão, bullying, estímulo de grupos perversos na internet, etc.), bem como diversas sugestões do que fazer para evitar que o fato aconteça. Em resumo, recomenda-se aos pais estarem mais próximos e atentos a seus filhos, buscando alterações sérias em seu comportamento (isolamento, automutilação, depressão, etc.), para que o jovem seja encaminhado a tratamento.

Entretanto, embora estas sejam as principais orientações da Organização Mundial de Saúde, há muito os especialistas sabem o quão difícil é, tanto detectar sinais como chegar a evitar um suicídio, quando a pessoa está determinada a isso. Em psiquiatria, há décadas se sabe que, se a pessoa realmente quiser se matar, ela terminará por fazê-lo. Tentará uma, duas, três vezes até conseguir atingir seu objetivo. É difícil encontrar um psiquiatra com décadas de prática clínica que não tenha tido algum caso de suicídio em seu histórico profissional. E isto não é culpa de ninguém.

Por que será então que se acredita que a intervenção dos pais poderia ser mais eficaz que a dos médicos, quando se trata do suicídio de adolescentes? Talvez por ser muito difícil, para qualquer um de nós, descobrir o que leva alguém a desistir da vida tão cedo. O fato em si é tão inaceitável que tendemos a achar que deva existir um jeito, uma fórmula, para acabar com tragédias deste tipo. Só que há um detalhe, nesta forma de encarar os fatos, que merece nossa atenção: ao falarmos tanto do que a família poderia fazer num caso desse tipo, podemos reforçar a sensação de culpa que já é inerente à situação. Sempre que ocorre um suicídio, os familiares (no caso, particularmente os pais) já se perguntam: ”como não percebi?”  ou “e se eu tivesse feito mais isso ou aquilo?”.

Afinal, é possível evitar o suicídio de alguém? Não há uma resposta incontestável para esta questão. Se, por uma lado, a OMS se apoia num estudo que concluiu que em 98% dos casos a vítima tinha algum transtorno mental (o que sugere que a morte poderia ter sido evitada, caso a pessoa recebesse o tratamento adequado), por outro,  oferecer o “tratamento adequado” é um conceito mais fácil de defender do que de colocar em prática. Isso porque cada caso tem sua própria subjetividade, e o tratamento, tanto com remédios psiquiátricos quanto com psicoterapia, sempre levará algum tempo para surtir efeito. É por isso que estudiosos do assunto afirmam, cautelosamente, que “dá para prevenir o suicídio, mas não dá para prever”. E prevenção é diferente de previsão.

Se prever um suicídio é impossível, como é possível preveni-lo? Mais uma vez, os especialistas explicam que não existe uma receita pronta nesse caso, mesmo em se tratando de pessoas a quem assistimos crescer dentro da nossa própria casa: é uma tarefa desafiadora identificar sinais de que um filho adolescente está sofrendo de uma angústia ou depressão mais profunda do que as típicas alterações dessa faixa etária.

Os pais de adolescentes suicidas vão conviver com o luto por perder um filho tão precocemente e de forma tão brutal. Os que pesquisam este assunto consideram que eles irão “sobreviver em luto”, referindo-se ao fato de que este é um luto que talvez nunca se esgote inteiramente. A situação é tão incomum e difícil de lidar que muitos pais buscam outros pais na mesma condição, para um apoio mútuo. Querem trocar suas experiências e tentar encontrar forças para superar a dor da perda.

Sabemos que o pior legado que um suicida de qualquer idade deixa aos que o amaram é o do sentimento de culpa. As pessoas se culpam por não terem previsto e impedido o fato. Como uma mãe declarou, numa entrevista: “Além de ter de reaprender a viver sem a pessoa, a parte mais difícil é ter certeza que você não teve culpa. Porque o que pega na gente é a culpa.” A estes pais, a sociedade deve oferecer sua compaixão e solidariedade.

 

 

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