Hipersensibilidade, uma fraqueza e uma força

Comportamento
10.fev.2021

Você sabia que a hipersensibilidade não é nem um traço de personalidade, nem uma patologia, é mais uma forma de ser? Hipersensíveis são pessoas que, por serem destituídos de certos filtros, percebem realidades que escapam aos que estão à sua volta. Além disso, são capazes de emocionar-se mais intensamente que os padrões habituais. Em contrapartida, possuem uma relativa dificuldade de verbalizar o que sentem.

Existem vários tipos de hipersensíveis: alguns podem se deixar “inundar” por suas emoções (pela alegria, por exemplo) ou pelas dos outros. Outros, hiper reativos, reagem fortemente à menor tensão e costumam ser muito suscetíveis. Existem vários outros grupos de hipersensíveis e, contrariamente ao que se pensa, somente um terço dos hipersensíveis são introvertidos. Os demais ou são extrovertidos em geral, ou extrovertidos com as pessoas próximas e introvertidos com os outros.

As diferenças entre os hipersensíveis estão também na forma com que vivenciam sua hipersensibilidade. Muitos a consideram uma limitação e sofrem por se sentirem incompreendidos;  sentem falta de laços, ligações autênticas, que acreditam não construir. Permeáveis aos julgamentos de terceiros, tem medo de decepcionar e de ser rejeitados. É comum se deixarem invadir pela sensação de inadequação ou de vergonha, e isso levar a um sentimento de inferioridade em relação aos outros.

A boa notícia de todo este contexto é que tudo isso pode vir a mudar, se a própria pessoa se trabalha, ao longo da vida, buscando o autoconhecimento e a aceitação de suas características. Melhor ainda, é fato comprovado que, quanto mais o hipersensível aprende a lidar com sua hipersensibilidade, mais ela se torna uma força e mais ela é aceita pelo seu entorno. Essas pessoas costumam ser criativas, intuitivas, sensíveis à beleza, alegres… Possuem um olhar sobre o mundo diferenciado, mais matizado e sutil.

Comigo, aconteceu de cedo ter consciência de que alguns de meus sentidos eram mais apurados do que seria de esperar. Bem mais tarde, percebi ser capaz de sentir a emoção de alguém e de captar sua personalidade em certa profundidade, intuitivamente. Esta característica acabou se tornando uma força em meu trabalho de psicoterapeuta, embora tenha levado muitos anos para aceitá-la, pois não me parecia “científica”. Muitas vezes percebia que estava “sentindo” por meus pacientes, e isso não ajudava: enquanto eu “sentisse” mais que eles a sua historia, eles não tomavam posse de seus sentimentos e não podiam elaborá-los. Mas, para o bem ou para o mal, na maior parte do tempo penso que para o bem, foi dessa forma que norteei o meu trabalho por décadas.

Hoje não me sinto mais assim, esponja tão disponível, talvez porque não queira mais me envolver com tantas emoções alheias… À exceção, é claro, de alguns casos de pessoas chegadas, que me deixo abraçar de bom grado, com carinho, porque quero e sei que posso ajudar. Quando estou sozinha, ou com minha família e amigos, quero aproveitar minha hipersensibilidade para me encantar com as descobertas do dia a dia, maravilhar-me com paisagens, emocionar-me com a natureza, inesgotável em sua capacidade de me preencher. Penso que seja a aposentadoria da entrega ao outro: há anos  afirmava que minha última fase de vida não seria dedicada a cuidar de gente: queria cuidar do ambiente, da natureza ou dos animais. Isso está por acontecer, mas até lá vou descobrindo, a cada ano que passa, o prazer de cuidar de mim. De me encontrar, de me apreciar. De estar do meu lado, e não do outro. Ora, “antes tarde que mais tarde”, dizia um antigo mestre. Verdade.

Minha hipersensibilidade?  Já foi uma fraqueza, talvez ainda seja um pouco. Mas em geral é uma força. Eu me escuto, finalmente. Não deixo mais de lado minhas emoções e minhas necessidades para me adaptar às dos meus queridos. Não nego mais minhas raivas, procuro entendê-las e conviver com elas. Nesse momento, eu me dedico a escrever, a ler sobre o que nunca li, à jardinagem, e assim vou dando livre curso à minha sensibilidade criativa. Estou num período que sei ser de transição. Emocionalmente, ainda sou à flor da pele, e sempre me coloco um monte de questões. Tenho um nível de exigência que às vezes me esgota, do qual não passaria pela minha cabeça abrir mão. Sinto-me sempre próxima da minha natureza profunda. Acho que a aceitei.

 

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