Ela ganha mais, o que acontece com a relação?

A Dois
24.out.2017

Apesar de ser cada vez maior o número de mulheres a sustentar a casa, a maneira com que tal situação é percebida ainda não mudou, mesmo com o aumento das taxas de desemprego e o desaparecimento de tantas profissões. Dificilmente poderemos afirmar que a sociedade já aceita o fato como natural: um casal onde a mulher sustenta os dois ou toda família, ainda é visto como “atípico”.

O olhar dos outros pesa sobre a vida a dois, ocasionando sentimentos de vergonha e culpa no homem frente à família e ao grupo social. Muitos casais com este feitio acabam por buscar uma terapia, referindo em geral diminuição do interesse sexual e conflitos frequentes. Muitas vezes, as críticas e acusações mútuas acabam por minar o relacionamento. Esta é uma problemática relativamente recente, mas que tem se tornado mais visível.

No mundo masculino, o dinheiro sempre esteve ligado à fantasia de potência sexual: o imaginário, em nossa cultura, associa “potência masculina” a uma força de iniciativa e decisão, que correria o risco de ser diminuída quando a mulher se torna a provedora do lar. Mas os acordos variam de um casal a outro: há casais que afirmam viver serenamente lado a lado e há aqueles para quem a assimetria financeira chega a atingir a vida sexual e há os que afirmam que é graças a um bom entendimento sexual que uma eventual assimetria se reequilibra.

A conclusão é a mesma de tantas outras situações de vida: não é o fato em si, mas como cada um lida com ele, que determina o seu papel em nossas vidas. Por isso, a sociedade deveria entender o quanto é impossível generalizar. Sempre.

Poderíamos dizer que um casal é funcional a partir do momento em que compartilha o conjunto, o todo da vida, do qual o dinheiro faz parte. Quem o ganha não detém forçosamente o poder na relação. Se for a mulher, é comum que a fantasia da “mulher toda poderosa” surja, mas tudo isso é apenas uma construção psíquica. O que de fato mata o desejo e a relação amorosa parece ser muito mais a ausência de franqueza, sinceridade, transparência, a tentação de varrer assuntos “difíceis” para baixo do tapete. Mentir ao parceiro, ou buscar minimizar uma situação potencialmente geradora de conflito, equivale a uma recusa de considerar o outro como um igual.

O terapeuta Bernard Prieur, psicanalista francês estudioso do tema, afirma que fazer de conta que a assimetria financeira não existe, não funciona. O importante é que cada um se sinta dando e recebendo e que determinadas regras na convivência se flexibilizem, de forma que “um se reveze com o outro quando necessário, para que uma verdadeira complementaridade tenha lugar”.

As gerações futuras deverão ser ainda mais confrontadas com o desemprego do que as atuais mas, em compensação, deverão ter mais facilidade de viver uma alternância dos papéis e das funções, qualquer que seja o sexo e a forma como um e outro contribuam para a subsistência e a segurança da família. O trato com o dinheiro, afinal, nada mais é que uma indicação da condição e da natureza do vínculo que nos une ao outro.

simone_sotto_mayor

Artigos relacionados

30 jan

“Era só pedir…”

Um pequeno vídeo anônimo circula nas redes sociais francesas desde meados do ano passado e, como se diz hoje em dia, “viralizou”. Mostra dois amigos conversando, e um serve um café ao outro. A certa altura, o anfitrião interrompe a conversa dizendo que precisa lavar a louça. Seu amigo, um pouco irritado, comenta: “acho maravilhoso […]

  • 3234
A Dois
24 mar

Como abraçar um porco-espinho

Tempos atrás, recebi de um amigo querido e auto-declaradamente “difícil de lidar”, um livrinho com o titulo aí em cima. Um pequeno tratado sobre o que torna as pessoas “difíceis” e um monte de dicas para lidar com elas. Uma manifestação de carinho e um pedido de socorro, seria possível tudo ao mesmo tempo? Meu […]

  • 8380
A Dois
13 nov

Jovens, expectativas e esperanças

Muitas vezes falamos em “esperança” e, na realidade, estamos pensando em “expectativa”. Como entender as linhas mais ou menos sutis que separam os dois sentimentos? Podemos começar lembrando, por exemplo, que a expectativa ocorrerá toda vez que depositarmos em alguém a responsabilidade por nossa satisfação ou felicidade. Esse tipo de sentimento, é claro, não pode […]

  • 1869
A Dois