Educação: liberalidade ou comodismo?

Filhos
20.jan.2015

Educar os filhos de verdade é um trabalho contínuo e bastante cansativo, que consome muitos anos de dedicação dos pais. Exige que se esteja genuinamente atento ao que se passa com eles e que permita acompanhá-los a uma certa distância, estando porém sempre prontos a intervir, se necessário.

Fala-se muito atualmente em não interferir na “liberdade” dos filhos, em deixá-los seguir seu próprio caminho. Mas como assim? A partir de quando, de qual momento na existência deles devemos nos abster de opinar e de dar-lhes uma ajuda em seu direcionamento, mesmo que isso não nos seja abertamente solicitado?

Com o crescimento do individualismo nos dias atuais (ou nesse fim de século), os pais também estão muito preocupados em obter o máximo de suas vidas para o seu próprio gozo. Além de ter um trabalho que agrade, todo mundo quer ser “feliz”, se divertir, consumir, viajar, ficar bonito, enfim, todos têm inúmeros objetivos absolutamente individualistas a serem perseguidos e alcançados.

A formação moral e emocional sólida dos filhos não é mais, frequentemente, parte desses objetivos a serem atingidos. Nós, no entanto, não admitimos isso de sã consciência. Todos somos adultos competentes, modernos e “liberais”.

Na verdade, por trás de tal “liberalidade” esconde-se muitas vezes, uma dose de comodismo. Pois é muito mais difícil educar realmente os filhos, “perder” tempo conversando com eles sobre suas experiências e anseios, do que, em nome de uma suposta postura liberal, deixá-los sozinhos fazerem suas escolhas desde muito cedo.

É interessante notar que os adultos que passaram pela experiência “liberal” quando eles próprios eram os filhos, não têm outro registro que não o do sentimento de abandono, solidão e confusão.

Também é importante que se saiba que não estamos falando de educação onde os valores são mais ou menos rígidos. Não é isso o que está em questão, e sim, a presença amiga e sinceramente interessada dos pais, criando, isto sim, um diferencial no sentido de filhos mais seguros e satisfeitos consigo mesmos.

Artigo publicado originalmente no jornal ‘O Globo’, em 28/11/1999
assinatura_simone

Artigos relacionados

20 maio

Filhos Adultos: Conviver, sim, invadir, não!

A partir do momento em que conseguimos nos despedir do papel de pais, torna-se mais fácil nos relacionarmos, de forma não intervencionista, com nossos filhos adultos. Os melhores relacionamentos entre pais e filhos nesta fase, encontram-se em famílias onde os pais foram capazes de manter o respeito e a admiração de seus filhos, mas também […]

  • 2283
Filhos
31 maio

Uma face da violência obstétrica

Recentemente comentamos aqui, de passagem, alguma coisa sobre o enorme número de operações cesarianas em nosso país. Somos, simplesmente, os campeões mundiais na ocorrência deste procedimento. E por que? Seriam nossas parturientes mulheres diferentes, medicamente falando, das mulheres mundo afora? Na verdade, não. Trata-se de uma questão cultural, que agora se sabe ter se desenvolvido […]

  • 1661
Filhos
10 fev

Lidando com o fim de nossos pais

  Tenho pensado mais no fim, e acho até que ainda não me acostumei com isto. Mas a vida vai passando, e os interesses vão mudando. Minha geração esteve à frente de muitas mudanças, sem instruções para lidar com diversas situações novas. Como agora, quando vejo muitos de nós às voltas com a questão de […]

  • 1152
Filhos