Pais idealizados: condenados para sempre?

Filhos
28.abr.2015

Não conheço um adulto que não tenha queixas a dirigir a seus pais, atribuindo-lhes com frequência a responsabilidade por algumas de suas frustrações no presente.  Da nossa infância conservamos todas as lembranças de injustiças, pequenas ou grandes, de desgostos passageiros ou de profundos momentos de angústia. Nossos rancores avaliam, a partir de um ponto de vista só nosso, o quanto nossos pais contribuíram para nossa infelicidade. Este ponto de vista surge quando nos damos conta da diferença que há entre o que esperávamos e o que recebemos, em relação a nossos pais. Não é fácil abrir mão dos “pais ideais” e aceitar nossos pais reais.

Todos nós, é claro, sonhávamos com pais perfeitos, capazes de atender a nossa imensa necessidade – mesmo na vida adulta, e por que não?? – de ser amados, valorizados e livres dos medos que teimam em nos atormentar. E tivemos os pais que tivemos: uns inexperientes demais, outros cansados demais, absorvidos demais por seus trabalhos ou mesmo por outros interesses. Muitas vezes, pais inibidos por seus próprios complexos, ou oprimidos por suas preocupações e ansiedades. Alguns, profundamente feridos, maltratados pela vida. A variedade de mazelas é quase infinita, mas queríamos que, ao chegarmos em suas vidas, tudo isso estivesse milagrosamente superado, curado, para que pudessem, a partir de então, nos atender com a perfeição que nosso desejo exigia…

O fato é que a reprovação aos pais é inevitável, e isto não tem a ver com a historia da relação filial. Quer tenha sido turbulenta ou, ao contrário, estável e cheia de afetividade, a sensação que fica é sempre a de um encontro cuja completude jamais foi alcançada. Quando, mais tarde, nos tornamos nós mesmos pais, é que começamos a avaliar o quanto a tarefa é difícil. Nesse ponto, em geral,   adotamos uma postura mais indulgente, em relação a nós mesmos, enquanto pais.  E, com um pouco de sorte, começamos a perceber  o quanto de imaturidade havia em nossa predisposição de acusar nossos pais por todos os nossos “defeitos”.

Entretanto, se mesmo a essa altura da vida, uma parte de nossa “revolta” permanece, é sinal que, em relação a eles, façam ainda parte deste mundo ou tenham já partido, continuamos a nos sentir incompreendidos, irritados ou mesmo cheios de ódio. Neste caso, é preciso conseguir visualizar com clareza o que eles nos fizeram (ou ainda fazem) e que desperta tanto assim nossa suscetibilidade. Identificar e experimentar a raiva é uma etapa que abre o caminho à aceitação e inaugura a possibilidade do perdão.

E como vai se dar, essa próxima etapa? Num primeiro momento, trata-se de reconhecer que certas atitudes nos prejudicaram mesmo, e em seguida, é preciso querer abandonar a posição de vitima. É assim que vamos juntar e curar nossos “pedaços” afetados na infância, e que, adoecidos, nos tiram a possibilidade de amar, construir e fazer nossas próprias escolhas.

Às vezes, é bastante difícil tocar naquela impotência que sentimos desde a infância, frente às demandas e/ou  criticas dos pais. Seja diante de pequenas frases lançadas por eles, numa forma que ainda nos fere,  às quais somos incapazes de nos opor ou de responder.

O sentimento é de vergonha de estar “ainda lá” , naquela antiga forma de sentir o embaraço, mesmo na nossa idade. E antes de dar espaço ou ouvidos a nosso desconforto, nós o abafamos com desprezo,  sem chegar a perceber que já é possível apaziguar o que sentimos, compreendendo a origem tais sentimentos.

O perdão aos pais é algo difícil mesmo. Tempos atrás, ouvi durante uma palestra brilhante, de um homem já bastante maduro, o comentário: “meu pai dizia que eu não iria ser ninguém na vida e vejam onde estou hoje”. Ele não estava pronto para perdoar o pai e precisava “trazê-lo” a cada dia para “presenciar” sua palestra.

O filósofo francês Jacques Derrida afirmou que o verdadeiro perdão é aquele concedido qualquer que seja a atitude do culpado, mesmo que ele não peça perdão ou não se arrependa: perdoa-se o culpado enquanto culpado. E, avalia o filósofo, ao conseguir instituir para nós mesmos o direito de perdoar, resgatamos a   liberdade de seguir adiante com nossas vidas…

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