Os adolescentes e o hábito de “ficar”

Filhos
26.nov.2013

A primeira geração a passar a infância diante da televisão, assistindo a controvertidos programas infantis comandados por apresentadoras e a novelas com forte conteúdo sexual, está atingindo a adolescência. Erotizadas desde cedo, as meninas que foram convidadas a substituir as suas convencionais roupas de crianças por indumentárias que lembravam freqüentemente mulheres vulgares, chegam à adolescência tendo a mídia como a maior referência em suas vidas.

Sem que dessem conta, chegaram a essa fase do seu desenvolvimento, acostumadas a não buscarem por si seus próprios valores e ideais, tendendo a adotar como seus os padrões que a televisão lhes impõe. Por outro lado, as relações nos anos mais recentes vêm ganhando características cada vez mais utilitárias, descartáveis, que por sua vez substituem laços afetivos mais sólidos. 

Com todo esse pano de fundo, o “ficar”, hábito inaugurado na década passada por adolescentes, sofre hoje algumas modificações. Quando surgiu, causou estranheza nos pais que, entretanto, logo absorveram o fato e encontraram explicações psicológicas que o validaram: é ótimo que meninos e meninas se descubram sensorialmente ao mesmo tempo, é mais saudável; começarão a vida sexual mais cedo, porém no mesmo compasso.

Atualmente, o que se vê não é exatamente isso. Meninas na faixa etária dos 11, 12 anos têm que “ficar” para não serem desprezadas pelas amigas. O hábito tornou-se um rito de passagem da infância para a adolescência, sendo cada vez mais antecipado.

Competitivas entre si, as meninas estabelecem quase um campeonato, onde as que “ficam” com um maior número de meninos são reconhecidas entre elas como as mais “populares” e, como tal, admiradas por seu “sucesso”. À medida que o tempo passa, novidades são incorporadas: uma das mais recentes parece ser a que surge em alguns grupos e que faz com que as meninas queiram “ficar” com mais de um menino na mesma festa, por exemplo. Algumas até se gabam depois de não saberem o nome do garoto.

O que as nossas afoitas meninas não sabem é que são eles que fazem as regras para elas. Assim, se ela “ficar” muitas vezes com um mesmo garoto e não virar namoro, pega mal. Para quem? Para a garota, é claro, que passa a ser estigmatizada pelo grupo (reedição da antiga moça falada, quem se lembra?). “Ficar” com o garoto que “ficou” com a amiga também não vale… para a garota, é claro outra vez, que a partir daí corre o risco de ser taxada de “cachorra” (nova versão de “fácil”). Se “ficar” com alguns meninos que se conhecem, também não escapa da pecha.

Com a ajuda dos pais e, principalmente, das mães, as nossas mocinhas precisam aprender o caminho do respeito por si próprias. Precisam entender que têm o direito, sim, às suas próprias satisfações, mas de acordo com seus próprios anseios. É necessário que aprendam a se ouvir para que saibam o que realmente desejam para si, cada uma dentro de suas singularidades. Para isso, primeiro precisam identificar aquilo de que estamos falando aqui.

Compreender que estão sendo manipuladas por todo esse conjunto de coisas não é lá muito fácil, convenhamos. Mas se não estivermos, nós mesmos, mães e pais, hipnotizados pela mídia e, portanto, com nossa capacidade de pensar adormecida, temos chance de ajudar.

Artigo publicado originalmente no jornal ‘O Globo’, em 16/04/2000
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