Sobre a vulnerabilidade

Comportamento
26.jun.2018

Na delicada questão da formação de vínculos nas relações interpessoais, a sensação de vulnerabilidade está sempre presente, só que de forma mais intensa em uns do que em outros. Vulnerabilidade é o que sentimos quando alguém parece enxergar em nós algo que queríamos esconder, como nossas inseguranças e medos. O sentimento de vulnerabilidade é alimentado pela vergonha que experimentamos diante do que julgamos ser nossas fraquezas e, em geral, faz parte de nosso processo de busca por reconhecimento, que se dá quando depositamos no outro nossas esperanças de sermos reconhecidos em nosso valor.

A americana Brené Brown constatou, em uma pesquisa, que pessoas que se sentiam vivendo de forma emocionalmente mais plena e que eram capazes de constituir maior número de vínculos consistentes em sua vidas, não se incomodavam em deixar a própria vulnerabilidade à mostra. Ao contrário, achavam que se tornavam mais atraentes àqueles com quem realmente valeria a pena estabelecer vínculos. Revelação bastante interessante, não é?

Sim, porque, normalmente, o que fazemos? Para lidar com o incômodo causado por nossa vulnerabilidade, em geral encontramos um só caminho: “sumimos”com ela, deixamos de senti-la e, com um só golpe, livramo-nos dos medos, da vergonha, da rejeição, da dor, do luto… Passamos a acreditar que temos o controle de nossas emoções e que nossas vidas só irão para onde quisermos que forem. A má notícia é: não funcionamos assim.

Por mais que tentemos dominar nossos medos, a vida será sempre imprevisível. E, temos até que admitir, aí está um de seus maiores encantos. A vulnerabilidade pode derivar da vergonha e do medo,  mas ela também é o berço da alegria, da criatividade, da sensação de acolhimento, do amor. Ainda não se descobriu uma forma de excluir seletivamente as emoções e por isso, quando bloqueamos a capacidade de sentir dor, bloqueamos também a capacidade de sentir alegria, gratidão, felicidade. O que se ganha é um sentimento de profunda insatisfação e uma sensação de estar só no mundo. Adquirimos a propensão a desenvolver uma ou mais compulsões, sempre em busca de uma satisfação inalcançável.

Quando conseguimos admitir nossa própria vulnerabilidade, passamos a nos aceitar melhor. Teremos mais apreço por nós mesmos e estaremos evoluindo como seres humanos. Ao permitir que nossa vulnerabilidade “venha à tona”, descobrimos que a vida é melhor de ser vivida quando não há tanta necessidade de controlar e prever o que pensam de nós.

Deveríamos ser gratos ao nos sentirmos vulneráveis, pois é a consciência de nossa vulnerabilidade que faz com que possamos nos sentir aptos a viver com intensidade nossas emoções. E, ao derrubarmos nossas próprias barreiras, há chance de derrubarmos também as barreiras do outro. Funciona assim: se você se abre e se revela nos encontros que a vida lhe oferece, vai identificar seus pares, aqueles que agem como você. E, com certeza, nossa vida emocional é mais rica quando nos mostramos mais. Alguma cautela, é claro, é preciso ter quanto a quem vamos revelar as preciosidades que estão guardadas dentro de cada um de nós…

 

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