Passar a limpo as relações

A Dois
28.ago.2018

Há muito não acredito que uma relação longa consiga sobreviver forte de verdade, se não tiver sido “passada a limpo” algumas vezes ao longo dos anos. Num casal, em família, nos laços de amizade, o conflito é, antes de tudo, um sinal de envolvimento e compromisso: briga-se para ajustar as diferenças, para avançar e progredir. Não apenas por nós mesmos, mas também pelo outro e pela relação em si. Gosto de chamar este processo de “passar a limpo uma relação”.

É muito comum que se pense que evitar a oposição preserva a harmonia nos relacionamentos. Só que, para criar relações de confiança, é preciso saber colocar as discórdias na mesa. A dúvida é: quando será que vale a pena entrar nesta “arena”? Resposta fácil para algumas circunstâncias, a começar por quem pretende  se relacionar amorosamente com alguém a médio ou longo prazo, por exemplo. É comum que casais tenham duas maneiras bastante precárias de enfrentar suas dificuldades: ou adota-se uma política “de avestruz” (fazer de conta que nada está acontecendo) ou se faz de conta que as desavenças foram superadas e pertencem ao passado. Um motivo frequente de separação, entretanto, é por casais não aprenderem a discutir suas diferenças. As incompatibilidades acabam atingindo várias áreas do relacionamento, até as pessoas se afastarem irremediavelmente.

Existe muita resistência, em nossa sociedade, a se aceitar que as coisas se deem desta forma. Há mesmo, em nossa cultura, uma idealização do que seria uma “boa relação”: seria aquela onde não se “precisa” discutir com o outro, tudo já está em seus devidos lugares. O imediatismo dos tempos atuais, a dificuldade em se chegar a acordos por conta dos egos que vem se hipertrofiando, tudo faz com que se veja a discussão da relação como uma coisa de pessoas chatas e impertinentes. E será que dá para botar uma pedra ao final de cada crise, como se nada tivesse acontecido, e daí a pouco tudo acontecer outra vez?

Num relacionamento que se mantém seguindo o padrão da “falsa harmonia” , a dificuldade está em  simplesmente saber colocar as diferenças na mesa, esclarecê-las e buscar solucionar as coisas. Mais complicado é quando uma das pessoas tem uma característica autoritária: não suportam uma opinião diferente da sua, considerando-a uma afronta ou uma provocação. Ou também se são muito suscetíveis, porque sentem como se estivessem sendo sempre criticadas: se o outro pensa diferente, está lhe dizendo que ele “está sempre errado”. Nesses casos é indicada uma terapia, com o terapeuta atuando como um mediador, “ensinando” a dupla a se colocar um para o outro. O importante é saber que não se trata de discutir por discutir. O objetivo é de alcançar, num confronto sem violência, o que se costuma chamar de um acordo ganha-ganha, vale dizer, um arranjo onde os dois lados saem ganhando.

O sentimento contrário ao amor não precisa ser só o ódio, a indiferença também o é. Uma relação onde se perdeu até o ânimo para enfrentar as divergências pode já ser um poço de indiferença mútua. O conflito é a condição para que cada um exista dentro do relacionamento, com suas emoções e suas convicções. Ele confere  autenticidade e cumplicidade aos vínculos, ao mesmo tempo que reforça o elo de ligação entre as pessoas. E ainda faz com que cada um se sinta mais forte naquele contexto.

 

 

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