As pessoas de boa-fé

Comportamento
15.jan.2020

Nos dias de hoje, sobrevivemos melhor quando aprendemos a desconfiar e a duvidar, a princípio, quase sempre. É justo que nos indaguemos: será que ainda nos lembramos do que sejam pessoas de boa fé? A impressão é que andam mais raras, nesses tempos em que o descompromisso com a verdade e a facilidade com que se produzem mentiras se tornaram corriqueiros. A mentira passou a ser quase “normal’, de tão frequente, dizem alguns, comentando os infortúnios da nossa sociedade.

O respeito à verdade é o valor maior para as pessoas de boa fé, é o que as norteia. E é por isso que dizem e sustentam apenas aquilo em que acreditam, mesmo que estejam enganadas. Ser de boa fé significa “dizer a verdade sobre o que cremos” e é o oposto da mentira, da hipocrisia e da duplicidade, todas formas de má fé. Diz o filósofo André Comte-Sponville: “ser sincero é não mentir a outrem, ser de boa fé é não mentir nem ao outro nem a si.”

E existe mesmo muita diferença entre dizer-se a verdade porque se é obrigado a isso (ou porque ela nos serve a algum objetivo) e escolher dizer a verdade mesmo quando não importa a ninguém, a não ser a si mesmo.

O amor à verdade é tão intenso numa pessoa de boa fé que passa a comandar seus atos e palavras. E é esta característica que deixa essas pessoas meio “fora do tom” nos dias de hoje. Como são verdadeiros, acreditam que os outros também o sejam, sem distinção. Não desconfiam, em princípio, de nada do que lhes é dito e acolhem tudo como se verdade fosse. Julgando os outros por si, acabam por não distinguir as regras sociais necessárias para transitar entre os diversos grupos sociais, tornando-se vítimas fáceis de manipuladores de diversos tipos.

Além disso, falta-lhes a malícia para sobreviver na selva que se tornou o campo das relações interpessoais, onde o exibicionismo e as performances são o que está valendo.  Talvez não cheguem a sofrer por causa disso, pois não se dão conta de ironias e críticas sutis, não conseguem identificá-las. São vistos como ingênuos ou como tolos. Só que veracidade não é idiotice.

Os jogos sociais, por outro lado, vem se tornando mais e mais difíceis, com a contínua fluidez de regras, a mudar rapidamente. É possível, entretanto, detectar a direção das mudanças: caminhamos para o descompromisso, a superficialidade e a inconsistência ou, em última instância, a inverdade em suas versões mais grotescas. A boa fé, ao contrário de tudo, simplesmente interdita a mentira.

Por isso é que as pessoas de boa fé terminam por ser reconfortantes oásis em nossa existência: o amor à verdade é algo tão essencial nelas que nos traz de volta a noção do valor inestimável. Quão valiosa para todos nós tem se tornado a verdade? Fazíamos questão dela como a exigimos hoje? E quantos, dentre nós, se dizem pessoas de fé quando isso, muitas vezes, não tem nada a ver com o simples e consistente amor à verdade?

simone_sotto_mayor

 

 

Artigos relacionados

22 jan

O que fazemos com a culpa?

Já reparou como crianças pequenas se comportam quando fazem algo errado? Elas dizem “não fui eu, foi ele!” e apontam, se possível, para o irmãozinho, que está brincando com outra coisa, lá longe. Crianças pequenas agem com esta inocência, sabemos disso e achamos natural. A questão muda de figura quando somos nós, os adultos, a […]

  • 2891
Comportamento
19 set

Do prazer à adição: uma epidemia moderna?

  Um olhar um pouco mais atento ao nosso redor pode nos levar a uma indagação: será que cada vez mais surgem patologias ligadas às condutas de adição? Não falamos daquelas adições, digamos, mais tradicionais, como as toxicomanias. Falamos das “adições comportamentais”, que parecem estar entre nós de forma cada vez mais natural.  Será que […]

  • 1622
Comportamento
10 mar

Depressão, o novo nome da tristeza?

Quando se instala, ela pode vir devagar ou de súbito: a tristeza lembra uma nuvem cinzenta a envolver alguém, manifestando-se por uma falta de vontade de quase tudo, mesmo falar ou ouvir pode ficar difícil. Sua primeira providência, digamos assim, é sufocar a energia vital no nascedouro. A partir daí, os dias se tornam pesados, […]

  • 2029
Comportamento