O medo do ridículo: de onde vem?

Comportamento
15.nov.2016

O medo do ridículo é universal, só que uns o sentem mais do que outros. Quando jovens, em geral todos temos mais dificuldades nessa área, porque tendemos a ter uma identidade mais grupal do que individual. Pensamos da mesma forma que nosso grupo pensa e o medo da rejeição nos faz abrir mão de nossas ideias ou opiniões muitas vezes. Em diversas situações em que nos sentimos desconfortáveis, fazemos isso conscientemente, após auto indagações do tipo: “o que vão pensar de mim?” ou:  “será que vão rir de mim se eu disser que gosto daquilo que todos disseram detestar?”…

Na longínqua década de 1950, um estudo feito pelo psicólogo Solomon Asch concluía que, em pelo menos 30% das vezes em que somos os únicos a discordar de algo, mesmo que tenhamos certeza de que estamos certos e o resto do grupo errado, abrimos mão da nossa percepção correta por conta da necessidade de nos sentirmos alinhados com o grupo. Esta conclusão não é de se desprezar. Ela significa, a grosso modo, que existe a séria possibilidade de, em um terço das oportunidades, renunciarmos a ser nós mesmos para aderir à maioria dominante. No estudo, os voluntários foram indagados, a seguir, sobre porque haviam mudado sua opinião. A resposta foi uma só: todos declararam que tiveram medo de serem desprezados e rejeitados se discordassem do restante do grupo.

O medo do ridículo pode estar presente de forma mais intensa em indivíduos que sofreram com críticas contínuas em seu ambiente familiar ou que tiveram origem em grupos sociais estigmatizados.  São pessoas assim que terão grande chance de adquirir, ao longo dos anos, uma suscetibilidade que acabará por complicar suas relações com os outros. Em casos extremos, como daqueles que fogem sistematicamente do contato com os outros, o medo de se exprimir pode ser paralisante. Uma pessoa em tal condição possivelmente precisará de uma terapia, para um dia vir a compreender que os outros não vivem prestando uma extraordinária atenção nele e que não é grave rirem de nós uma vez ou outra. Ao contrário, é até normal, faz parte da vida.  E ainda, que as outras pessoas, em geral, não são tão sarcásticas quanto supõem os que, dentre nós, são naturalmente menos seguros de si.

Mas também vamos lembrar que, assim como o medo do perigo nos preserva de condutas arriscadas, o medo do ridículo, desde que não se apresente numa intensidade paralisante, também tem lá seu lado útil. Ele nos faz saber, por exemplo, que a convivência com os outros nos exige respeito a alguns códigos de conduta e nos ensina a levar em conta a sensibilidade dos que nos cercam. Afinal, não queremos que os outros sintam o mesmo embaraço que sentimos.

O medo do ridículo, além de nos incitar a ser cuidadosos com os outros, ainda nos leva a querer permanecer dignos, já que nos preocupamos com nossa imagem frente ao mundo. A ausência total do medo do ridículo atinge em cheio a noção de si mesmo. É o famoso sujeito “sem noção”, que não se dá conta da existência dos demais nem se importa com os efeitos nocivos que, eventualmente, suas palavras possam causar. Com alguma frequência temos visto algumas figuras públicas assim. Mas quem, na sua vida privada, deseja se relacionar com pessoas assim? O ser mais adulto e civilizado necessariamente há de ter, de alguma forma, noção do ridículo e certamente não quer ser visto como alguém pouco digno.

simone_sotto_mayor

 

 

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