A liberdade na adolescência

Filhos
10.dez.2013

Ninguém tem dúvidas de que a juventude, em nossos dias, desfruta de uma liberdade desconhecida das gerações anteriores. Hoje, o pensamento dominante entre os jovens parece ser de que limites existem para serem ultrapassados em várias áreas. Acumular o maior número de experiências no menor espaço de tempo, tudo bem rápido e passageiro, passou a ser a meta da maioria.

É próprio da época em que vivemos o estímulo constante à busca de emoções fortes e numerosas, ainda que fugazes. Os jovens, com sua tradicional onipotência, são os que mais prontamente atendem a esse apelo, vivendo a esbarrar em perigos dos quais nem se dão conta. Tornando o panorama um pouco mais complexo, temos ainda que nos lembrar que essa sempre foi a fase da vida marcada pela rebeldia e transgressão. Jamais havíamos assistido, entretanto, a transgressões tão graves como as que vêm sendo praticadas numa escala crescente e preocupante.

E os adultos, como estão diante de modificações tão rápidas e drásticas? Em geral, confusos e preocupados, embora nem sempre o declarem. Alguns pais ainda se mostram ambíguos diante das transgressões de seus filhos. Embora apresentem um discurso queixoso, mal escondem um quê de orgulho que sentem em relação à “façanha” do filho. Em geral, esses são pais que tiveram eles próprios uma criação severa, com normas rígidas, numa época de valores mais empedernidos. É como se o filho realizasse o que ele não pôde, quando passou pela adolescência.

Outros pais estão preocupados com seus filhos, querem se aproximar, mas têm medo de suas críticas. Ocorre aqui uma inversão de valores bastante curiosa, pois fica parecendo que os pais, além dos jovens, também acham que são estes que detém o saber, devendo a vivencia dos mais velhos ser simplesmente descartada como inútil.

Em nossa sociedade, é freqüente se ver pessoas adultas terem dificuldades para se colocarem contra às correntes de opinião predominantes. Assim, os modismos acabam por se generalizar mais rapidamente e a forma de pensar das pessoas tende a se tornar uniforme, algo semelhante à perpetuação de um grupo adolescente. Aliado a isto, os adultos com medo de serem vistos como antiquados, não se sentem autorizados para discordar dos filhos.

É oportuno recordar aos pais que nem tudo o que é velho é ruim e nem tudo o que é novo é bom. Simplesmente, é novo. As coisas tornam-se boas ou não com o tempo, à medida que mostram a que vêm.

De qualquer forma, é bastante difícil se fazer ouvir pelos mais jovens. Intervir com limites na adolescência, após uma infância de muita permissividade, pode não ser nada simples. Os pais, entretanto, não deveriam desanimar e sim continuar a buscar o diálogo com seus filhos, sempre que perceberem que têm algo a acrescentar à experiência deles. É possível insistir com os filhos, quando se tem posições definidas e fundamentadas em argumentação lógica e coerente. E, principalmente, quando a direção da conversa for a busca de caminhos mais sensatos e saudáveis.

 Artigo publicado originalmente no jornal ‘O Globo’, em 19/10/2000

assinatura_simone

 

Artigos relacionados

23 jan

Dizer não ao filho é traumatizá-lo?

Já se foi o tempo em que o conhecimento das teorias psicanalíticas ficava restrito aos consultórios e às análises que lá aconteciam. Muitas noções se difundiram com certa facilidade através dos meios de comunicação e foram assimiladas livremente pela nossa cultura. Outras, entretanto, infelizmente ganharam um significado um tanto deturpado. Um conceito que se generalizou […]

  • 3218
Filhos
28 abr

Pais idealizados: condenados para sempre?

Não conheço um adulto que não tenha queixas a dirigir a seus pais, atribuindo-lhes com frequência a responsabilidade por algumas de suas frustrações no presente.  Da nossa infância conservamos todas as lembranças de injustiças, pequenas ou grandes, de desgostos passageiros ou de profundos momentos de angústia. Nossos rancores avaliam, a partir de um ponto de […]

  • 2360
Filhos
11 fev

A consagração do “ficar”

Às vezes assistimos à consolidação de um determinado comportamento que foi se generalizando sem que nos déssemos conta e, em dado momento, achamos estranho ele estar ali, estabelecido como se sempre tivesse estado. Aí, nos indagamos como aquele movimento surgiu, como ele chegou àquele ponto, àquele lugar e o não acompanhamos? Com o ficar foi […]

  • 1256
Filhos