Dizer não ao filho é traumatizá-lo?

Filhos
23.jan.2018

Já se foi o tempo em que o conhecimento das teorias psicanalíticas ficava restrito aos consultórios e às análises que lá aconteciam. Muitas noções se difundiram com certa facilidade através dos meios de comunicação e foram assimiladas livremente pela nossa cultura. Outras, entretanto, infelizmente ganharam um significado um tanto deturpado.

Um conceito que se generalizou e que parece não ter sido muito bem compreeendido é a noção do trauma. Nunca os pais se preocuparam tanto em não traumatizar os filhos. Passou-se a acreditar que os filhos não podem ser contrariados, ou melhor, frustrados, sob pena de ficarem traumatizados e tornarem-se adultos infelizes.

A psicanálise, que proverbialmente sempre “culpou a mãe por tudo”, tornou-se um elemento persecutório na mente dos pais. Nenhum pai ou mãe quer ser acusado no futuro de ter traumatizado seu filho, negando-lhe a satisfação de seus desejos. Perdeu-se o bom senso – um elemento indispensável para o pai e a mãe saberem distinguir os anseios cabíveis dos excessos de seus filhos; o “não” foi banido do vocabulário dos pais por ter se tornado um sinal inequívoco de pais repressores, antiquados e autoritários.

Todavia, os pais não podem imaginar como o “não” é necessário à formação do ser humano. Aprender a suportar a frustração de não poder ter tudo o que se quer, no momento em que se quer, torna os indivíduos muito mais aptos para a luta pela sobrevivência. Poder adiar a satisfação de seus desejos, aprender a não ser tão imediatista, possibilita aos filhos organizar melhor a vida e os ajudam a estipular os projetos e metas para o futuro.

Já os indivíduos que julgam que todos os seus desejos têm de ser imediatamente atendidos tendem a se tornar eternamente insatisfeitos. Podem até permanecer à margem da sociedade produtiva, não conseguindo nela ingressar, por viverem à espera de que alguém lhes dê, enfim, aquilo a que julgam ter direito.  É o final real, mas que poucos imaginam, para uma criança que foi poupada de negativas por parte dos pais.

 

Artigos relacionados

31 maio

Uma face da violência obstétrica

Recentemente comentamos aqui, de passagem, alguma coisa sobre o enorme número de operações cesarianas em nosso país. Somos, simplesmente, os campeões mundiais na ocorrência deste procedimento. E por que? Seriam nossas parturientes mulheres diferentes, medicamente falando, das mulheres mundo afora? Na verdade, não. Trata-se de uma questão cultural, que agora se sabe ter se desenvolvido […]

  • 1621
Filhos
27 mar

Aprendendo a fazer vínculos

A ideia de comunidade vem desaparecendo e com ela seu conceito de consciência e aceitação da dependência recíprocas, por compromisso, lealdade, solidariedade e confiança. A vida em comunidade, com a solidariedade florescendo naturalmente entre as pessoas, tem dado lugar a uma existência mais individualista, onde as pessoas são levadas não a colaborar, mas a competir […]

  • 1759
Filhos
18 dez

Adolescentes e a conquista da autonomia

Adultos, em geral, sabem que a capacidade de agir por si mesmo, de fazer escolhas e de assumi-las, é conquistada ao final de um longo processo de aprendizado. Como ajudar o adolescente, que se encontra em pleno processo de aquisição deste conhecimento?  Os pais ficam cheios de dúvidas em relação a qual conduta adotar: seria […]

  • 3232
Filhos